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O Nascimento da Igreja, uma análise de atos dos apóstolos Cap. 2 e 3

O NASCIMENTO DA  IGREJA, UMA ANÁLISE DE ATOS DOS APÓSTOLOS CAPS. 2 , 3.

Postado por: Pr. Ozório R. Gonçalves (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.)

EM UM APARTAMENTO DO TEMPLO – 2:1-47
1
- Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar;
2 - de repente veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados.
3 - E apareceram, distribuídas entre eles, línguas como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles.
4 - Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.

a) O Batismo no Espírito Santo
1. Chegara o grande dia. O dia para o qual apontava todo o plano e todo o programa do Senhor Jesus. Sua morte e ressurreição não teria significado sem sua respectiva propagação; e esse era o dia em que os dois grandes fatos seriam declarados publicamente pela primeira vez. Estando em Cesareia de Filipe, Jesus fez aquela gloriosa promessa: “... edificarei a minha Igreja...” (Mateus 16:18); naquela ocasião Jesus tinha em vista o dia de Pentecostes. O termo Igreja (em grego: ekklesia) significa, em sua raiz, “os chamados” do mundo por intermédio da pregação da Palavra a fim de que se tornassem possessões do Senhor Jesus Cristo, para começar a formar, dessa forma, Seu corpo de “separados do mundo”, isto é a Sua Igreja. Jesus não foi explícito sobre o número de dias que os apóstolos deveriam demorar-se em Jerusalém aguardando a descida do Espírito Santo. Simplesmente disse que não seria “muito depois destes dias” (1:5). É interessante notar, entretanto, a mão divina na seleção daquele dia particular:

a) As Pessoas Apropriadas para aquele dia estavam presentes: “homens piedosos” (2:5), muito mais prontos para receber a mensagem que lhes seria dirigida.
b) Os Pregadores Apropriados estavam presentes: aqueles que o próprio Jesus designara – Seus doze apóstolos. Esses eram os homens que Jesus selecionara e ensinara, preparando-os todo o tempo para aquela momentosa ocasião.

c) O Poder Apropriado estava presente. O prometido poder que seria dado por ocasião do batismo no Espírito Santo, foi recebido pelos apóstolos. A questão do batismo no Espírito Santo deve ser considerado como um estudo especial. É suficiente, contudo, dizer o seguinte:

(1) Jesus prometera aos apóstolos que eles haveriam de receber o poder do alto (1:5).
(2) Que a construção gramatical de 1:26 e 2:1 mostra que somente os apóstolos receberam aquela experiência;
(3) Quando nos lembramos que os manuscritos originais não continham os capítulos e versículos e parágrafos existentes nas versões modernas, e quando lemos o fim do primeiro capítulo, ignorando-o, entretanto, fica claro que Lucas quis dizer que foram os recipientes do batismo no Espírito Santo. Note-se que os trechos em questão dizem assim:

E (eles) os lançaram em sortes, vindo a sorte a recair sobre Matias, sendo-lhe então votado lugar com os onze apóstolos. Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos (eles) reunidos no mesmo lugar” (Atos 1:26 – 2:1).

O fato que o antecedente de qualquer pronome se refere ao nome mais próximo, com o qual concorda em pessoa, número e caso, deixa definitivamente claro que somente os apóstolos receberam o batismo no Espírito Santo.

Parece razoável apenas dizer, agora, onde estavam reunidos os apóstolos. A Escritura diz que eles “estavam todos reunidos no mesmo lugar” (2:1b); mas, que “lugar” era esse? Bem, é de extrema importância notar que deve ter sido qualquer outro lugar que não o cenáculo, referido em 1:13, pois, tivesse sido esta ocasião uma mera continuação da ação que tomou lugar do cenáculo, não haveria necessidade de dizer que estavam reunidos todos no mesmo lugar, visto que isso já seria fato conhecido.

Estamos inclinados a afirmar que esse lugar era algum apartamento do templo. Mantemos essa opinião pelos seguintes motivos:

(1) A circunstância dos apóstolos terem pregado para milhares de pessoas não teria sido possível caso tivesse sucedido numa residência particular. Por outro lado, se os doze estivessem em algum apartamento do templo, tudo quanto tinham que fazer era apenas se voltarem para o pátio do apartamento, havendo ali espaço suficiente para acomodar a multidão.
(2) Visto que aquele era dia de grande festa religiosa entre os judeus, o templo era o melhor lugar para a celebração (Lucas 24: 53), e não parece lógico que os apóstolos estivessem em casa em tal ocasião.
(3) Além disso, Lucas estabelece que eles perseveravam continuamente no templo, louvando a Deus. Que ocasião mais apropriada do que essa, de estar no templo adorando ao Senhor naquele grande dia de festa dos primeiros frutos?

2-4. Note-se que houve “um som, como de um vento impetuoso”. Lucas não diz, aqui, que houve um vento forte, e sim, um som como de um vento impetuoso. Esse som soou justamente no lugar onde eles estavam sentados. Imediatamente precedendo o som, ou aparecendo simultaneamente com o mesmo, surgiram as línguas “como de fogo” que se distribuíram sobre os apóstolos. Essas línguas como de fogo eram como o som do vento, e não eram línguas de fogo verdadeiras. A razão para essa espantosa manifestação tinha em vista, sem dúvida alguma, emprestar esplendor à situação, a qual assim, atrairia a atenção e o interesse, ao mesmo tempo que manifestaria, a todos os que a vissem ou ouvissem, que a mão de Deus estava naquela experiência. Podemos ter a certeza absoluta de que o versículo 4 do segundo capítulo é o cumprimento literal do versículo 5 do primeiro capítulo. Jesus prometera o batismo no Espírito Santo e aqui estava o cumprimento da promessa.

Consideremos, finalmente, um ponto importante: Qual o significado da palavra “batismo”, aqui usada? Os objetos do batismo acima foram os apóstolos... e o elemento do batismo foi o Espírito Santo. Quais partes dos apóstolos foram imersos no Espírito Santo? Um momento de reflexão nos leva à conclusão de que as suas mentes foram as porções imersas no Espírito Santo. Dessa maneira, a personalidade do Espírito Santo imergiu literalmente as personalidades dos doze e eles falaram, não de seus espíritos, mas somente conforme seus espíritos, imersos no Espírito Santo, eram controlados por Ele. Realmente as palavras de Jesus, em Mateus 10:20, encontraram um cumprimento: “Visto que não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós”.

b) O Resultado Desse Batismo
5 Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, de todas as nações debaixo do céu,
6 quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua.
7 Estavam, pois, atônitos, e se admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos esses que estão aí falando?
8 E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna,
9 partos, medos e elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto e Ásia;
10 da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem,
11 tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes; como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?
12 Todos, atônitos e perplexos, interpelavam uns aos outros: Que quer isto dizer?
13 Outros, porém, zombando, diziam: Estão embriagados!

5-13. Já temos observado o resultado do batismo no Espírito Santo sobre os apóstolos, e agora verificaremos o resultado do mesmo sobre os que a tudo observam.
Notemos os presentes e que testemunharam a cena:

“... judeus, homens piedosos, de todas as nações debaixo do céu...”, v. 5.

Conforme já comentamos, o dia de Pentecostes era o dia em que milhares de judeus deixavam seus lares e seus torrões a fim de virem a Jerusalém a fim de participar daquela festa anual. Que eram homens piedosos concluímos pelo fato que estavam profundamente interessados pelas coisas pertencentes a Jeová. Não poderia ser imaginado melhor solo para implantar a semente do reino. Em seguida Lucas esclarece sobre o que atraiu a multidão – “... quando, pois, se fez ouvir aquela voz...” isto é, o som como de um vento impetuoso. Parecia estar localizado em certa parte do templo. Isso atraiu numerosa multidão para investigar o que estava acontecendo. Quando chegaram, imagine-se a sua surpresa por não encontrarem os efeitos de algum poderoso vento; mas o que viram nunca antes tinha sido visto por olhos humanos, e ouviram o que ninguém ainda tinha ouvido.

Podemos imaginar um judeu da Capadócia, por exemplo, correndo para aquela parte do templo. Enquanto se aproxima tem que parar de vez em quando para não colidir com estranhos. Há um aumento sempre crescente da multidão que se avoluma, todos se esforçando para chegar ao local do fenômeno. Enquanto ele ouve a babel de vozes e exclamações, parece-lhe que não há dois dialetos parecidos. Pensa ele: “Ah! como seria bom estar novamente entre o meu povo e ouvi-los falar outra vez a minha língua!...” Estava ele perto do templo quando foi atraído por aquele som, e agora já se acha bem perto do local de onde ele provém. Há um pequeno grupo de homens reunidos debaixo do balcão de um dos apartamentos do templo. Olha e vê ali alguns homens de aparência bastante comum. “Mas, que é aquilo sobre as cabeças deles? Parecem línguas de fogo. Estão falando, mas que estão eles dizendo?” Subitamente o nosso judeu da Capadócia verifica que pode compreender o que eles dizem – estão falando em seu próprio dialeto nativo! Como é bom ouvi-lo novamente, e eles estão declarando as poderosas obras de Deus. Ouve por um momento e, enchendo-se de curiosidade, olha ao seu redor. Estampado nas faces de todos há o maior espanto. Todos parecem sentir-se tremendamente confusos. Logo o choque da primeira impressão passa, e ele vê em cada mão o sinal de que todos os que estão naquele ajuntamento compreendem o que aqueles homens estão dizendo. “Como pode ser isso? Esses homens aí não são da Galileia? Como pode ser que cada homem presente os ouça em sua própria língua nativa? Ora, aqui há homens de todas as partes: Há partos e medos e elamitas, e moradores da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, como eu e outros. Há outros que vieram de Ponto, da Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito e das partes da Líbia perto de Cirene, e viajantes vindos de Roma, tanto judeus como prosélitos, e até mesmo cretenses e árabes. Todos ouvem o que eu ouço e compreendem aqueles homens, cada qual em sua própria língua... Que significa isso?”

Aqui deixamos nosso judeu imaginário, apenas para adicionar que todas as testemunhas do fenômeno estavam confusas e espantadas. As perguntas feitas pelo nosso amigo da Capadócia eram as perguntas de todos, igualmente, faziam. Nós, todavia, embora compreendemos a importância e o significado da cena, também nos espantamos deveras ao lermos que houve zombadores que tiveram a ousadia de fazer zombaria da divina demonstração de poder. Disseram com a mais estúpida falta de entendimento: “Estão embriagados!”

c) O Sermão de Pedro
14 Então se levantou Pedro, com os onze; e erguendo a voz,   advertiu-os nestes termos: Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai nas minhas palavras.
15 Estes homens não estão embriagados, como vindes pensando, sendo esta a terceira hora do dia.
16 Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel:

14-16. Evidentemente a zombaria dos zombadores foi alta e distinta bastante para que os apóstolos a ouvissem, pois agora observamos Pedro levantando-se e defendendo o grupo apostólico das acusações tolas dos zombadores. Suas primeiras palavras são ousada negação da acusação, e então segue-se a resposta dupla. “Estes homens não estão embriagados, como vindes pensando”, porque:

1. São somente nove horas da manhã. Quem jamais ouviu falar de judeus embriagados numa festa religiosa sagrada? A acusação de embriaguez não podia ser verdadeira, visto que tal falta importaria numa violação estrita da lei judaica que vedava o uso de bebidas e intoxicantes em qualquer dia de festa.

2. Isso que estais vendo e ouvindo é o cumprimento de uma profecia. “O que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel”. E em seguida o apóstolo Pedro cita as palavras do profeta.

Verificaremos seu significado e importância, versículo por versículo:
17 E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos.
18 Até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão.

17-18. Os últimos dias, referidos nesses versículos, devem ser associados ao contexto para que obtenhamos seu significado exato. A palavra de Joel, bem como as palavras de muitos dos outros profetas, se referem a Judá e Jerusalém, pelo que podemos afirmar que, os “últimos dias” se referem aos últimos dias de Judá como tribo (o termo “Judá”, às vezes, se refere, igualmente, a toda Israel, como nação), e aos últimos dias de Jerusalém como cidade. O cumprimento exato dessas palavras se torna aparente ao meditarmos que apenas trinta e cinco ou quarenta anos depois, a contar do dia em que Pedro falou, veio a completa destruição de Jerusalém e a dispersão da nação israelita.

As palavras “derramarei do meu Espírito sobre toda a carne” foram potencialmente cumpridas no dia de Pentecostes. É impossível exigir mais que isso. A referência de “toda carne”, certamente se refere à recepção do Espírito Santo, tanto pelos judeus como pelos gentios. Dizer que “toda carne”, naquele dia, recebeu do derramamento do Espírito Santo, é um absurdo, visto que somente judeus estavam presentes. Como, então, se pode afirmar que as palavras do profeta foram cumpridas? Parece dizer melhor que, porque os apóstolos foram batizados no Espírito Santo, também foram autorizados a pregar a Boa-mensagem tanto aos gentios como aos judeus, e que, através da obediência à Boa-mensagem, tanto os judeus como os gentios receberam, como dom da parte de Deus, o Espírito Santo (2:38,39). Dessa forma pode-se afirmar que “toda carne” recebeu o Espírito Santo através do que ocorreu no dia de Pentecostes.

Em seguida encontraremos a profecia de que os filhos e filhas profetizaram e teria visões. Como podem essas coisas ser ligadas com o dia de Pentecostes e com os acontecimentos desse dia? A resposta é encontrada quando percebemos que, através do batismo no Espírito Santo, os apóstolos receberam o poder de impor as mãos sobre outros crentes e transmitir-lhes os chamados “dons espirituais” (I Coríntios 12:1-11). Esses dons incluem profecia, sabedoria, conhecimento, etc. A afirmação dos versículos 17 e 18, relativa à capacidade de profetizar e ver visões pode ser compreendida como os dons espirituais que eram proporcionados pela imposição das mãos dos apóstolos.
Tudo isso sucedeu como resultado do batismo no Espírito Santo.

19 Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais em baixo na terra; sangue, fogo e vapor de fumo.
20 O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor.
21 E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

19-21. Muitas e diversas são as afirmações que se tem feito a respeito desses versículos. Não entraremos na arena da controvérsia, mas nos contentaremos em dizer que parece provável que as palavras desses três versículos poderia muito bem ser aplicadas ao dia da festa de Pentecostes. Note-se as diversas expressões e como elas encontram cumprimento na celebração:

1. “Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais em baixo na terra...” e então segue-se a descrição desses prodígios e sinais... “... sangue, fogo e vapor de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.

Uma explicação de Atos 2:19-21 é: O sangue e o fogo e o vapor de fumo certamente poderiam ser encontrados naquele dia festivo. O sangue certamente era dos altares, correndo como rios, enquanto milhares de animais estavam sendo sacrificados. O fogo e o vapor de fumo ascendiam dos mesmos altares, enquanto os mesmos sacrifícios eram queimados. Enquanto os grandes rolos de fumo enchiam o ar de Jerusalém, o sol, muito literalmente, se converteu “em trevas”, ficando escondido por causa da fumaça que intoxicava a atmosfera. A lua, vista através da fumaça, parecia da cor de sangue. Tudo isso teve lugar antes da pregação do primeiro sermão da Boa-mensagem; a pregação da mensagem da redenção fez com que o dia de Pentecostes fosse chamado de “o dia do Senhor”. E então pode ser dito que, “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Como é que essa invocação do nome do Senhor teve lugar, é melhor ler o resto do capítulo.

A resposta de Pedro à acusação de embriaguez, formou o início para o resto de sua pregação. Tendo mostrado que todos aqueles acontecimentos sucediam em cumprimento às profecias, dá prosseguimento à sua mensagem, entrando imediatamente no corpo do seu sermão. Aqueles que ouviu Pedro, por essa altura, já deveriam ter compreendido que ele e os onze falavam por inspiração divina, e que a mensagem que proclamavam vinha da parte de Deus. Apenas uma pergunta deve ter ficado pendentes em suas mentes: Devemos admitir, realmente, que esses homens estão falando liderados divinamente, mas, qual o propósito disso tudo? Qual o motivo atrás dessas coisas? Certamente a ocasião tinha em vista mais do que simplesmente declarar em diversas línguas, “as poderosas obras de Deus”. Essa questão não foi respondida pelo apóstolo Pedro. Podemos dizer, entretanto, que a intenção de todo aquele divino esplendor era em preparação para a declaração de Jesus como Ungido de Deus e Senhor.

22 Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós, com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis;
23 sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;
24 ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela.

22-24. São os versículos que contém o tema da mensagem de Pedro. Os versículos 25-36 são um mero desdobramento e desenvolvimento dos fatos estabelecidos nos versículos 22-24. Considere-se os fatos seguintes, dos versículos 22-24: “Varões israelitas, atendei a estas palavras”. Uma observação preparatória, que chamou a atenção dos ouvintes para as palavras importantes que se seguiram: Esse Jesus de Nazaré foi homem aprovado por Deus com sinais e prodígios da parte de Deus, os quais foram realizados pelo poder de Deus, no meio do povo que agora ouvia a Pedro. Eles, e especialmente os “habitantes de Jerusalém”, haviam testemunhado muito dos milagres operados por Jesus de Nazaré, e por conseguinte, sabiam que as palavras de Pedro diziam a verdade. O verdadeiro propósito daquelas obras, maravilhas e sinais, evidentemente haviam escapado da percepção dos que os testemunharam, pois Pedro esclarece, agora, o seu verdadeiro significado. Todas aquelas coisas foram feitas afim de demonstrar ao povo que Jesus gozava da aprovação de Deus. Provavam que Deus O havia destacado acima de todos os outros homens, concedendo-Lhe Sua sanção divina e Seu selo. Isso, para a mente dos judeus não podia significar outra coisa senão a descrição mesma do Messias, ou Cristo, o Ungido de Deus.

Em seguida Pedro proferiu aquelas palavras que convenceram as mentes e despertaram intensamente a culpa nos corações de seus ouvintes. Que o Nazareno era poderoso em palavras e obras não podia ser negado; mas, que Lhe havia sucedido? Sim, essa era a questão; e todos os que estavam ali presentes sabiam perfeitamente bem o que havia acontecido a Jesus. Deveria ter sido um daqueles acontecimentos conhecidos e falados por todos. Certamente todos comentavam que Jesus de Nazaré, há poucas semanas anteriores, havia sido crucificado fora dos muros de Jerusalém. Ninguém, entretanto, havia meditado nas terríveis consequências daquela morte, até que as palavras de Pedro sobre o assunto, tiveram o dom de despertar a compreensão dos ouvintes. Pedro lhes declarou que o próprio Deus havia dirigido a morte de Jesus, mas que, contudo, os judeus, (seus ouvintes) eram responsáveis de Seu assassinato. Sucede, entretanto, que Jesus não ficara preso pela morte, pois a Ele “Deus ressuscitou”. Pois Jesus não podia ficar retido pelos grilhões da morte. Rompeu esses grilhões e saiu vitoriosamente do sepulcro, vencendo, assim, a morte e a sepultura. Que notícia chocante! Eles haviam crucificado o próprio Messias! E todavia, Deus havia determinado de antemão que as coisas fossem assim. O mais espantoso de tudo, entretanto, é que Jesus estava, agora, vivo novamente.

Quatro foram os fatos estabelecidos por Pedro, na introdução do seu sermão: (1) Jesus foi homem aprovado por Deus com obras poderosas, maravilhas e sinais. (2) Foi crucificado pelos judeus, que usaram as mãos “iníquas” dos romanos. (3) Deus havia predeterminado tudo isso. (4) Deus levantou ao Senhor Jesus dentre os mortos. Dos quatro fatos acima, os dois primeiros não precisavam ser aprovados, pois eram fatos incontestáveis; os últimos dois, entretanto, necessitavam de maiores evidências para que fosse verificados autênticos.

25-32. Os versículos 25-32 contêm as evidências escriturais para os fatos três e quatro mencionados pelo apóstolo Pedro. A maneira mais fácil de convencer a qualquer judeu que Deus havia predeterminado um acontecimento era citar o Antigo Testamento, mostrando-lhe, ali, uma palavra profética que se aplicasse ao ponto disputado.

25 Porque a respeito dele diz Davi: Diante de mim via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja abalado.
26 Por isso se alegrou o meu coração e a minha língua exultou; além disto também a minha própria carne repousará em esperança,
27 porque não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção.

Esse é o procedimento que Pedro usa aqui. O salmista Davi foi invocado como testemunha do que Deus havia previamente determinado – de que uma certa pessoa seria ressuscitada dentre os mortos. Os versículos 25, 26, contêm as proféticas palavras de Davi, escritas cerca de quinhentos a setecentos anos antes de Cristo Jesus. Na citação do salmo de Davi temos, nos versículos 25, 26, uma observação introdutória para o verdadeiro ponto dessa profecia, que é o versículo 27. Nas palavras que Davi usou para referir-se a Cristo, ele usa a primeira pessoa gramatical. Note essas palavras:

Diante de mim via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja abalado. Por isso se alegrou o meu coração e a minha língua exultou; além disto também a minha própria carne repousará em esperança”.

Visto que a pessoa aqui referida na primeira pessoa gramatical é Cristo, concluímos que essas palavras se referem à Sua pré-existência. Enquanto naquele estado “via sempre o Senhor” diante dEle. Jeová Lhe estava bem perto, e era a Sua força. Essa aproximação e harmonia faziam com que Seu coração fosse tornado de alegria e também causaram-Lhe palavras de regozijo. Então, olhando para Sua vinda a esta terra, que ainda jazia no futuro, Cristo pode dizer, por causa de sua prévia perfeita harmonia com o Pai que, quando Se tornou carne, pode viver em esperança. Isso nos leva ao tema mesmo da profecia: que, embora o espírito de Cristo tivesse que afastar-se do Seu corpo, não ficaria, entretanto, para sempre no lugar dos espíritos apartados, isto é, no “hades”; nem o Seu corpo experimentaria corrupção. Isso fala da ressurreição, o retorno do espírito ao corpo, antes que este pudesse corromper-se. E assim os dois fatos – a pré-determinação de Deus, e a ressurreição de Cristo – foram estabelecidos.

Restava a Pedro, agora, apenas fazer a aplicação direta dessas evidências à pessoa de Jesus de Nazaré.

28 Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria na tua presença.
29 Irmãos, seja-me permitido dizer-vos claramente, a respeito do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e o seu túmulo permanece entre nós até hoje.
30 Sendo, pois, profeta, e sabendo que Deus lhe havia jurado que um dos seus descendentes se assentaria no seu trono;
31 provendo isto, referiu-se à ressurreição de Cristo, que nem foi deixado na morte, nem seu corpo experimentou corrupção.
32 A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas.

O versículo 28 se refere ao fato que a vida do Ungido de Deus, enquanto viveu neste mundo, foi dirigida por Jeová... visto que Ele assim permitiu ser dirigido, podia contemplar, no futuro, a alegria de contemplar a face do Pai, lá na glória.

O pensamento que, nessa profecia, Davi estava descrevendo uma ressurreição, não podia ser negado. A única questão que restava na mente dos ouvintes de Pedro, era: “De quem falava o profeta Davi: de si mesmo ou de algum outro?” Visto que o salmista usou a primeira pessoa gramatical, era necessário demonstrar que Davi não se referia a si mesmo. Disso é que Pedro agora trata: era fato bem conhecido que Davi tanto faleceu como foi sepultado, e que seu sepulcro poderia ser verificado por qualquer interessado. Pelo que não podia ser dito que a profecia da ressurreição se cumpriu em Davi. A solução pode ser encontrada no ofício que Davi ocupava, pois sendo profeta, podia ver detalhadamente os eventos futuros. Sabia que Deus lhe havia feito certa promessa, de que, de seus lombos viria Um que ocuparia o eterno trono dos céus. Sabendo, por conseguinte, esse fato, então falou nos termos do salmo dezesseis. Nesse salmo Davi se refere à ressurreição do Ungido de Deus, o qual nem foi deixado no hades nem sua carne experimentou corrupção. Com que propósito, pois, é a ressurreição aqui tratada? A resposta é bem evidente: porque somente um ser glorificado pela ressurreição poderia ocupar tal trono.

Agora começava a tornar-se cada vez mais manifesto aos ouvintes de Pedro que, sobre Cristo, foram preditos os seguintes fatos:

1. Cristo haveria de morrer. 2. Contudo, Seu espírito não permaneceria no hades. 3. Nem Seu corpo experimentaria decomposição. 4. Além disso, Ele haveria de ressuscitar a fim de assentar-se no trono celestial, à mão direita de Deus Pai.

33 Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis.
34 Porque Davi não subiu aos céus, mas ele mesmo declara: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direta,
35 até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés.
36 Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.

33. A conclusão final foi apresentada, e agora Pedro procura enfatizar o que certamente já estava enraizado nas mentes dos seus ouvintes judeus. Jesus havia preenchido todas as qualificações que pertenciam ao Ungido de Deus, e agora restava apenas falar sobre a Sua exaltação à mão direita do Pai. E disso, Pedro diz sobre Jesus em termos que não admitiam qualquer dúvida:

“Exaltado, pois, à destra de Deus”. Então prossegue Pedro explicando que, em relação direta com a atual exaltada posição de Jesus e com as circunstâncias presentes do dia de Pentecostes, o Senhor Jesus, de Seu trono, recebeu o cumprimento da promessa do Pai, isto é, o Espírito Santo. A demonstração do Espírito Santo, que atuou naquele dia, era o resultado do cumprimento da promessa feita por Jesus de Nazaré não é outro senão o próprio ungido de Deus.

Os seguintes fatos tiveram cumprimento em somente uma pessoa – Jesus de Nazaré – pois:

1. Ele foi crucificado. 2. Seu corpo não se corrompeu na sepultura. 3. Seu espírito não permaneceu no hades. 4. Estava sendo testemunhado que Ele fora ressuscitado dentro os mortos por Deus.

Certamente, então, Jesus de Nazaré deveria ser o Ungido de Deus. Agora Ele estava à mão direita de Deus Pai. Essa conclusão de Pedro é transmitida aos seus ouvintes nestas palavras cheias de significação:

“A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas”.

Previamente Pedro havia dito que Deus ressuscitara a Jesus de entre os mortos (v. 24), mas agora declara o motivo porque fora Ele assim ressuscitado. E dá as provas de Sua ressurreição: “Sabemos que Deus O ressuscitou dentre os mortos”, diz Pedro, pois “todos nós (os apóstolos) somos testemunhas” da Sua ressurreição.

34-35. A prova profética final se encontra no versículo 34. Pedro mostra que, o que é dito ali do Ungido de Deus, nunca poderia ter sido tido sobre Davi, pois este nunca havia subido ao céu. Além disso, Davi rebateu qualquer ideia de que havia ele subido aos céus, quando disse, no Salmo 110:1, que Jeová estava falando ao seu (de Davi) Senhor, ao convidar o Ungido para assentar-se à Sua direita, até que todos os Seus inimigos fossem postos debaixo dos Seus pés. As palavras de exaltação a Jesus, que o salmista escreveu, pois elas certamente se aplicam a Jesus de Nazaré, emprestam sólido fundamento e grande poder às palavras conclusivas de Pedro:

36. “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”.

O impacto que essas palavras produziram nas mentes e nos corações dos ouvintes de Pedro, quase não pode ser imaginado por mim ou por ti. Aquele por quem todos os judeus do passado haviam esperado, por quem todos haviam orado, chegara, mas, tão somente para ser crucificado por aqueles por causa de quem Ele viera.

Agora esboçaremos o sermão de Pedro. Note-se:

A introdução do sermão 2:14-21. Resposta de Pedro aos que zombavam.

1. Pedro primeiro chamou a atenção de seus ouvintes para o que ele tinha a dizer, v. 14.
2. Primeira resposta de Pedro às acusações contra o grupo de apóstolos, baseada na hora do dia, v. 15.
3. Segunda resposta de Pedro, baseada no fato que os eventos daquele dia eram cumprimento da profecia de Joel, v. 16-21.

O tema do sermão “Jesus é o Ungido de Deus”.

Desenvolvimento do sermão 2:22-35:

1. As obras, maravilhosas e sinais operados por Jesus, demonstraram a aprovação de Deus, v. 22.
2. A morte de Jesus fora predeterminada por Jeová, e foi levada a efeito pelas criminosas mãos dos romanos, impelidas pelo ódio dos judeus, v. 23.
3. Deus, entretanto, ressuscitou a Jesus dentre os mortos, v. 24.
4. Davi falou detalhadamente sobre a ressurreição e exaltação do Ungido de Deus, o que não foi cumprido na pessoa do próprio Davi, mas sim, na pessoa de Jesus de Nazaré, v. 25-31.
5. Jesus ressuscitou dos mortos, fato que era atestado por testemunhas oculares, v. 32.
6. Jesus, tendo sido exaltado conforme fora profetizado, recebeu Sua posição exaltada a fim de, entre outras coisas, receber a promessa do Espírito Santo, para derramar a manifestação do Espírito Santo sobre os apóstolos, v. 33.
7. Davi falou sobre a exaltação do Cristo em outro de seus salmos (110:1). O próprio Davi não havia ascendido aos céus, mas disse que o seu Senhor foi convidado pelo Senhor a assentar-se à Sua direita até que os Seus inimigos fossem subjugados, v. 34.

Conclusão do sermão de Pedro 2:36: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus”, etc., visto que:

1. Jesus foi aprovado por Deus, v. 22.
2. A predição da morte do Ungido de Deus acha cumprimento na pessoa de Jesus.
3. Deus o ressuscitou dentre os mortos, conforme Davi profetizou que sucederia ao Cristo, vs. 24, 28.
4. Mais ainda, Jesus estava agora exaltado, de conformidade com que Davi dissera a Seu respeito, vs. 29-31.
5. Nós, os apóstolos, somos testemunhas oculares dessa ressurreição de Jesus, v. 32.
6. O derramamento do Espírito Santo no dia de Pentecostes, foi enviado por esse Jesus, em vista de Sua nova exaltada posição, v. 33.
7. Finalmente, Davi não falou acerca de si mesmo ao dizer que Senhor (Jeová) disse ao Senhor (Jesus) que se assentasse à Sua direita até que Seus inimigos fossem subjugados, mas sim, falou acerca do Ungido de Deus, palavras essas que só encontraram cumprimento na pessoa de Jesus de Nazaré, v. 34.

“Em vista disso tudo, nós, os apóstolos, vos afirmamos que Deus fez Jesus, a quem vós crucificastes, tanto Senhor como Ungido”.

d) Os Resultados Desse Sermão

37 Ouvindo eles estas coisas, compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?
38 Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados e recebereis o dom do Espírito Santo.
39 Pois para vós é a promessa, para vossos filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor nosso Deus chamar.
40 Com muitas outras palavras deu testemunho, e exortava-os, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa.
41 Então os que lhe aceitaram a palavra foram batizados; havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas.

37-41. “Os resultados imediatos, foram: primeiro, convicção e interrogação; segundo, instrução e exortação; e, finalmente, obediência e adição à Igreja daqueles que receberam o Espírito” (G. Campbell Morgan, página 87). Estas palavras nos fornecem ótimo esboço dos resultados da mensagem de Pedro. Notamos esse esboço em detalhe:

As últimas palavras de Pedro, foram: ... “a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”. Agora os seus ouvintes sabiam com clareza a quem haviam crucificado... Não poderemos nos colocar no lugar dos ouvintes de Pedro? Eles haviam crucificado o seu Messias. E, contudo, isso havia sido predito – que o Ungido de Deus haveria de sofrer. Isso, todavia, não abrandava a culpa de Seus crucificadores. Para quem poderiam eles, agora voltar-se? Poderiam eles ousar voltar-se para Deus, uma vez que o sangue do Filho unigênito de Deus manchava-lhes as mãos? Achavam-se em desesperada necessidade de perdão. Como obtê-lo, entretanto, é que era a pergunta para a qual não atinavam com a resposta. É natural, portanto, a pergunta que fizeram: “Que faremos, irmãos?” que fariam sobre o que? Qual era a necessidade da qual a multidão tinha ciência? Bem, o que precisavam era perdão. Podemos, por conseguinte, afirmar que estavam interrogando sobre uma única questão – o perdão.

Notemos agora a instrução e a exortação de Pedro, em resposta à interrogação feita pelos judeus convictos.

Pedro deu-lhes uma resposta direta e sem hesitação. Disse-lhes sem rodeios e exatamente o que “deviam fazer” para que fossem perdoados e tivessem garantida a remissão de seus pecados: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados”, disse-lhes Pedro. Como é que se pode imaginar que o batismo não tem ligação com o perdão dos pecados quando Pedro tão claramente respondeu sobre as condições do perdão em forma tão clara?

(Um estudo completo sobre a conexão entre o batismo a remissão dos pecados é dada por McGarvey em seu “New Commentary on Acts”, Vol. I, páginas 243-262).

Pedro informou a seus inquiridores que, em adição à bênção do perdão, pelo arrependimento e pelo batismo, deveriam receber um dom de Deus – nada menos que o “Espírito Santo”. Explicou-lhes que a promessa da remissão e o dom do Espírito Santo lhes foi expressamente provida, como também para seus filhos e para todos os que estavam longe (sem dúvida se referindo aos gentios), tantos quantos o Senhor Deus chamasse para Si mesmo. Quanto à forma pela qual Deus chamaria essas almas para Si mesmo, melhor maneira de sabermos é lendo o resto do registro sagrado, notando que Deus chama tanto judeus como gentios, igualmente, para Si próprio, por intermédio da pregação da Boa-Mensagem II Tess. 2:14.

Temos acabado de dar atenção às palavras de instrução dos versículos 38 e 39; agora notemos as palavras de exortação do versículo 40. Não foi suficiente estabelecer em muitas palavras as condições de perdão, pois os ouvintes não tinham conhecimento prévio do plano de salvação pela graça de Deus. Eis porque o apóstolo Pedro passou não pouco tempo, conforme verificamos no versículo 40, nem usou poucas palavras, testificando e exortando a respeito da grande salvação. Sem dúvida alguma ele traçou o plano de redenção pro meio da morte substituta do Ungido de Deus. As palavras por ele pronunciadas, puderam, então, ser chamadas pelo escritor sagrada, de “testemunho” e de “exortação”, ou seja, uma apresentação lógica dos fatos evangélicos que salvam a alma. Então em palavras exortativas, isto é, em apelo apaixonado, mostrou aos seus ouvintes a necessidade urgente do arrependimento e do batismo, para que, dessa maneira, pudessem apropriar-se dos benefícios advindos do sangue do Ungido. Dizendo: “Salvai-vos desta geração perversa”, Pedro, sem dúvida alguma, se referia aos que havia dito no versículo 38, quando exigiu ação da parte dos seus ouvintes – arrependimento e batismo. Quanto às palavras: “Salvai-vos desta geração perversa”, certamente evidenciam a verdade que a geração, como um todo, estava eternamente perdida, e que seus ouvintes deviam salvar-se da mesma, como alguém se salva de um “navio que afunda”.

Finalmente os convictos das palavras e Pedro, obedeceram à Boa-mensagem e foram adicionados. O “receber da Palavra” pode ser compreendido no sentido que eles ficaram determinados a seguir à sua palavra e a cumprir as exigências da Boa-mensagem, o que explica porque foram eles batizados.
Alguns têm levantado objeções quanto ao número de batizados naquela ocasião – três mil almas – baseando-se num suposto número excessivo, à falta de água, ao tempo disponível, etc. Todas essas dificuldades, entretanto, se tornam em nada ao levarmos em consideração certos fatos históricos sobre a cidade de Jerusalém.

Quanto à última parte do versículo 41, podemos dizer, nas palavras de Adam Adcock:

“Quanto nada existe, somente Deus pode originar alguma coisa por meio da criação. A fim de formar a raça humana do nada, Deus teve que CRIAR o primeiro homem e a primeira mulher. A fim de por em existência a Igreja de Cristo, o Senhor CRIOU os primeiros cristãos no dia de Pentecostes, pelo poder sobrenatural do Espírito Santo. Não nos podemos admirar que as multidões tenham ficado maravilhadas, confundidas e perplexas. Nunca havia sucedido cenas como naquela ocasião. Nem nunca mais houve repetição das mesmas, desde que Deus pôs o mundo em seu curso. Dizer que o dia de Pentecostes é o dia do “nascimento da Igreja” é impróprio, pois nada pode ser nascido sem antecedentes ou precedentes da mesma espécie. Adão e Eva não tiveram ancestrais; nem a Igreja os teve. A Igreja é uma nova criação. A raça humana foi ORIGINADA, no primeiro par; a Igreja foi CRIADA nos primeiros cristãos, os doze apóstolos originais. Dizer, pois, que a Igreja “nasceu” no dia de Pentecostes, é usar uma figura imprópria; dizer que a Igreja foi CRIADA naquele dia é dar uma descrição própria de sua origem. Mas o Senhor cria apenas quando se torna necessário. Criação não é um processo semelhante ao nascimento. Não há a menor indicação que os doze apóstolos originais tenham recebido qualquer outro batismo além do batismo de João. O primeiro pai e a primeira mãe tiveram que ser CRIADOS; todos os outros seres humanos são NASCIDOS. A Igreja foi criada na pessoa dos primeiros cristãos, os apóstolos; todos os outros cristãos são feitos tal pelo NOVO NASCIMENTO. A criação é essencialmente miraculosa; o NASCIMENTO, seja velho ou novo, é sempre uma operação de lei” (Atos Analisados, páginas 28, 29).

E assim, aqueles três mil convertidos foram adicionados à Igreja criada. Nasceram na família de Deus “da água e do Espírito”. Por outro lado, os apóstolos foram criados como os primeiros membros da família de Deus.

42 E perseveraram na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.

42. A palavra final sobre os resultados do sermão de Pedro pode ser verificada nos seus frutos. A Boa-mensagem dominou de tal maneira as vidas daqueles primeiros convertidos, que continuaram perseverantemente na adoração a Deus. Essa adoração é expressa nos quatro itens seguintes: (1) a doutrina dos apóstolos; (2) a comunhão, ou seja, a aproximação que uns sentiam pelos outros, em luta por uma causa comum; (3) o partir do pão, isto é, a Ceia do Senhor; e (4) as orações.

e) A Unidade da Congregação
43 Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos.
44 Todos os que creram tinham juntas todas as coisas que lhes eram comuns.
45 Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tivesse necessidade.
46 Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa, e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,
47 louvando a Deus, e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.

43-47. O motivo dessa unidade pode ser encontrado no versículo 43ª “Em cada alma havia temor”.

O temor do Senhor não é apenas o “princípio da sabedoria”, mas também o princípio da unidade entre os irmãos na fé. Quando Jeová é considerado em alta estima e reverência, quando Ele é amado mais que qualquer posição ou possessão terrena, pelos Seus filhos, então pode existir unidade entre eles. Pois então fica estabelecido um só padrão comum, cada qual se considera pessoalmente responsável a Deus, e, quando todos pensam e agem por esse princípio, então todos se sentem um.

Os resultados dessa unidade podem ser encontrados nos versículos 43b-47. Note-se:

1. Os apóstolos puderam trabalhar com maior sucesso (v. 43b). Isso não teria sido possível caso houvesse divisões.
2. Todos os que creram estavam juntos, e o egoísmo não prevalecia (v. 44).
3. Aqueles crentes não somente tinham ideia da unidade, como também a punham em demonstração prática (v. 45).
4. Essa união com Deus e uns com os outros, os levava a adorar a Deus diariamente, não somente no templo, como também em seus próprios lares. Sua reverência a Deus permitia que o cumprimento de seus deveres diários se tornassem em outras tantas alegrias (v. 46).
5. O resultado final e inevitável dessa unidade divina era a salvação de muitas almas. Visto que adoravam e louvavam ao Senhor com seus lábios e com suas vidas, alcançaram a simpatia e o favor do povo comum. E Deus adicionava ao seu número, diariamente, aqueles que se iam salvando. Seus nomes se achavam escritos no livro da vida do cordeiro, e isso desde o momento em que O aceitavam como Salvador. Quando Jeová contempla aquela grande lista de nomes, deve dizer para Consigo mesmo: “Estes são os meus chamados, a minha Igreja”.

PERGUNTAS
36. Por que podemos considerar que o dia de Pentecostes foi o dia escolhido para o qual apontava todo o plano e o programa do Senhor Jesus?
37. Explica como a Igreja foi estabelecida no dia de Pentecostes.
38. Dê três evidências da mão divina interferindo na seleção do dia de Pentecostes como dia próprio para o estabelecimento da Sua Igreja.
39. Por que podemos dizer que a construção gramatical de Atos 1:26 e 2:1 demonstra que somente os doze apóstolos receberam o batismo no Espírito Santo?
40. Como podemos saber que a reunião dos apóstolos, no dia de Pentecostes se verificou em algum outro local que não o cenáculo?
41. Quais razões podem ser oferecidas em apoio à opinião que o batismo no Espírito Santo ocorreu em algum apartamento do templo?
42. O som como de um vento impetuoso foi um som geral ou local?
43. Por qual motivo essas manifestações miraculosas sucederam nessa ocasião?
44. Qual afirmação de Jesus foi cumprida naquele dia?
45. Explica o significado e uso da palavra “batismo”, quando usada em conexão com o batismo no Espírito Santo.
46. Que espécie de judeus estavam presentes no dia de Pentecostes e que os atraiu para que ouvissem as palavras de Pedro e dos demais apóstolos?
47. Usando um Dicionário ou Enciclopédia Bíblica, examina algum diagrama do templo, e formula, em tua mente, a localização da área do templo, dos apartamentos e do santuário.
48. Quais as três palavras que descrevem os resultados do fato de cada homem ter ouvido falar em sua própria língua?
49. Usando um Dicionário ou Enciclopédia Bíblica, localiza, no mapa, onde ficavam as nações referidas em Atos 2:9-11.
50. Será que os apóstolos falaram ao mesmo tempo em quinze idiomas diferentes, ou será que o Espírito Santo operou, naquela ocasião, um milagre?
51. Qual razão levou certos homens a dizerem: “Estão embriagados”?
52. Em que sentido é que as palavras de Pedro, referentes à hora do dia, respondem às acusações dos zombadores?
53. A qual período de tempo se referem as palavras “últimos dias”, usados no versículo 17?
54. Como é que as palavras de João acharam cumprimento no dia de Pentecostes, isto é, aquelas palavras que dizem: “Derramarei do meu Espírito sobre toda a carne”?
55. Quando foram consumados esses “últimos dias”?
56. Como é que a capacidade de profetizar e de ter visões foi cumprida no dia de Pentecostes?
57. Onde foram cumpridos os sinais e maravilhas da profecia?
58. Com a Bíblia aberta lê os versículos 19 e 20 do capítulo dois, e então, de memória, mostra como essas coisas foram cumpridas no dia de Pentecostes, com uma nota especial a respeito do dia do Senhor.
59. Depois da pergunta acusadora sobre a suposta embriaguez dos apóstolos, qual a pergunta natural da mente de todo judeu inteligente ali presente?
60. Qual o verdadeiro propósito por detrás de todo aquele divino esplendor?
61. Em quais versículos temos o tema e a proposição da mensagem de Pedro? Na tua opinião, qual é o tema dele? E a proposição?
62. Por qual motivo as palavras de Pedro, encontradas nos versículos 22-24 implicariam convicção nos corações de seus ouvintes?
63. Diz de memória, com tuas palavras, os quatro fatos dados por Pedro na introdução do seu sermão.
64. Qual o propósito dos versículos 25-32?
65. Qual o motivo de Pedro ter usado tal método para convencer os judeus sobre os pontos 3 e 4 de seu sermão?
66. Explica, com tuas próprias palavras, a aplicação dos versículos 25 e 26 à pessoa de Cristo.
67. Mostra como os dois últimos pontos de Pedro, a saber, os pontos três e quatro, são evidenciados com uma simples afirmação.
68. Explica o versículo 28.
69. Que relação entre o versículo 29 e a profecia de Davi?
70. Qual a conexão entre a promessa de Deus a Davi e a ressurreição do Ungido de Deus?
71. Mostra como o que estava predito do Ungido de Deus achou cumprimento na pessoa de Jesus de Nazaré.
72. Que conexão teve a manifestação do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, com a exaltação de Cristo?
73. Explica os versículos 34 e 35.
74. Mostra como os versículos 34 e 35 formam base sólida para o versículo 36.
75. Por que é que as palavras do versículo 36 causaram tal impacto nos ouvintes de Pedro?
76. Dê de memória, o esboço da mensagem de Pedro.
77. Dê, em forma de esboço, os três resultados do sermão de Pedro.
78. Descreve as causas que levaram os ouvintes de Pedro a exclamar: “Que faremos, irmãos”?
79. Sobre o que estavam eles perguntando, ao dizer: “Que faremos?”
80. Qual o primeiro pensamento apresentado na instrução que Pedro lhes deu?
81. Que significa a expressão: “o dom do Espírito Santo”?
82. Explique o versículo 39 com suas próprias palavras.
83. Qual a diferença entre “palavras de testemunho” e “palavras de exortação”?
84. Que associação tem as palavras “Salvai-vos” com o que já foi dito antes?
85. Que significa a expressão: “Então os que lhe aceitarem a palavra”?
86. Como se pode explicar que 3.000 almas foram adicionadas à Igreja, se esses foram os primeiros membros da Igreja?
87. Que conexão com a adoração tem os quatro itens mencionados no versículo 42?
88. Qual o motivo da unidade descrita em 2:43-47?
89. Com a Bíblia aberta prepare um esboço dos cinco resultados conseguidos.
90. Deveria ser praticada a comunhão de bens descrita nesses versículos hoje em dia? Caso negativo, por que não?
91. Por que é lógico imaginar o Senhor Jeová olhando a lista de nomes do livro da Vida e dizendo conSigo mesmo: “Estes são os meus chamados, a minha Igreja”?

NA PORTA CHAMA FORMOSA – 3:1-10
1 Pedro e João subiam ao templo para a oração da hora nona.
2 Era levado um homem, coxo de nascença, o qual punham diariamente à porta do templo chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam.
3 Vendo ele a Pedro e João que iam entrar no templo, implorava que lhe dessem uma esmola.
4 Pedro, fitando-o, juntamente como João, disse: Olha para nós.
5 Ele os olhava atentamente, esperando receber alguma coisa.
6 Pedro, porém, lhe disse: Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!
7 E, tomando-o pela mão direita, o levantou; imediatamente os seus pés e artelhos se firmaram;
8 de um salto se pôs em pé, passou a andar e entrou com eles no templo, saltando e louvando a Deus.
9 Viu-o todo o povo a andar e a louvar a Deus,
10 e reconheceram ser ele mesmo que esmolava, assentado à porta Formosa do templo; por isso encheram-se de admiração e assombro, pelo que lhe acontecera.

1. O grande dia de Pentecostes havia passado, mas seu poder ainda perdurava. Assim é que deve ser em toda experiência religiosa. Agora vemos o poder do dia de Pentecostes em ação, nas vidas diárias dos servos de Deus. Visto que Pedro e João eram judeus, observavam as três horas hebraicas para oração – às nove da manhã, ao meio dia e às três horas da tarde.

2. O templo de Jerusalém era o local próprio para as reuniões e orações públicas de todos os judeus da cidade. Sucedeu, pois, na hora vespertina de oração, que dois dos apóstolos de Jesus estavam subindo a escadaria do templo. Essa escadaria ia ter em certa porta do templo, cognominada de Formosa, sem dúvida por causa de sua bela construção. Diariamente era levado um coxo pedinte até essa mesma porta, e ali era deitado a fim de pedir esmolas daqueles que entravam no templo. Lucas descreve a condição física daquele homem como coxo desde o ventre materno, e tão aleijado que era necessário que alguns viessem carrega-lo até àquela porta a fim de mendigar.

3. O motivo porque os olhos do pobre homem caíram sobre Pedro e João, e porque implorou-lhes que lhe dessem uma esmola, entre todos os da multidão que entrava no templo, somente Aquele que observa a queda dos passarinhos pode saber. Ouvindo as penalizantes palavras do pobre indivíduo prostrado no chão, os corações de Pedro e João foram tocados pelo mesmo Espírito que enchera as suas vidas no grande dia dos primeiros frutos; eles perceberam que ali estava um homem que, entre os outros homens, seria usado agora por Deus para glorificar Seu servo Jesus.

Oh, amigos meus, que possamos enxergar naquela pobre alma, que jazia do lado de fora da porta Formosa, a vós e a mim – nós que nada possuímos capaz de recomendar-nos como mediadores para a graça de Deus, embora Ele faça conhecida a Sua glória por nosso intermédio. Maravilha das maravilhas! “Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída”. Como a jactância dos homens está longe da salvação de suas almas...

4-6. O coxo contemplou as faces daqueles dois estranhos de olhar penetrante mas compassivo, observando-os de sua humilde postura. O olhar do aleijado era o olhar de esperançosa expectativa, porém, em nada diferia do olhar que ele lançava a qualquer outro judeu benevolente. O desapontamento e a curiosidade provavelmente aguçaram a atenção do infeliz judeu ao ouvir as palavras que Pedro começou a dirigir-lhe: “Não possuo nem prata nem ouro...” Poderia ele ter pensado: “Não tem dinheiro? Então para que chamar minha atenção? Para que incomodar-me? Estou aqui com um propósito apenas; nada mais quero”. Então vieram as palavras seguintes: “... mas o que tenho, isso te dou:” Teria o esmoler pensado novamente: “Que tens tu? Não te vejo meter a mão nas vestimentas, nem há coisa alguma em tua mão estendida”. Todos esses pensamentos podem ter surgido na mente do pobre indivíduo, entre as frações de segundo que separavam as palavras de Pedro. Talvez nem chegarem a ser expressos em sua mente, mas tão somente sentidos em seu coração. E então, tudo aconteceu de repente. Ele ouviu as inesquecíveis palavras de poder e vida:

“... em nome de Jesus Cristo, o Nazareno ANDA!

O apoio firme da mão de Pedro, e então a força, a alegria que literalmente invadiu sua alma, a experiência e o êxtase de poder saltar, pôr-se de pé, andar!

7-10. Lucas, com sua costumeira exatidão médica, descreve a ação da cura como sendo imediata, tendo atingido os pés e os artelhos do enfermo. Quantos gritos de alegria e louvor não devem ter sido ouvidos no templo, naquele dia, quando o ex-coxo deu entrada no templo, juntamente com Pedro e João, “saltando e louvando a Deus...” Que espanto não teria sido o da reverente multidão que estava no templo... “Essa é a maneira para alguém comportar-se em tal local e em tal hora?” Mas, então, olhando mais cuidadosamente, reconheceram algo de familiar no exuberante indivíduo. “Mas, não é esse o mendigo que vimos, ao entrarmos no templo pela porta Formosa? Será que esse é realmente o mesmo indivíduo que há momentos atrás nos pediu uma esmola? Sim, realmente é ele mesmo!” Então ficaram as testemunhas do sucedido cheias de “admiração e assombro, pelo que lhes acontecera”.

PERGUNTAS
92. Por qual motivo podemos afirmar que o poder do dia de Pentecostes se manifestou no caso sucedido à porta Formosa?
93. Nomeia as três horas próprias para oração.
94. Quais as duas características da condição física do esmoler nos são fornecidas pelo dr. Lucas?
95. Mostra a comparação que existe entre aquele coxo e eu e tu na qualidade de pecadores.
96. Descreve a cura do homem coxo, desde as primeiras palavras de Pedro, até que todos entram no templo.
97. Há alguma razão para crer que o coxo curado pelo Senhor, por intermédio de Pedro e João, era bem conhecido na população de Jerusalém?

NO PÓRTICO DE SALOMÃO – 3:11-26

11 Apegando-se ele a Pedro e a João, todo povo correu atônito para junto deles no pórtico chamado de Salomão.
12 À vista disto, Pedro se dirigiu ao povo, dizendo: Israelitas, por que vos maravilhais disto, ou por que fitais os olhos em nós como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?
13 O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, e quem vós traístes e negastes perante Pilatos, quando este havia decidido soltá-lo.
14 Vós, porém, negastes o Santo e o Justo, e pedistes que vos concedessem um homicida.
15 Dessarte matastes o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas.
16 Pela fé em o nome de Jesus, esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus, deu a este saú de perfeita na presença de todos vós.
17 E agora, irmão, eu sei que o fizeste por ignorância, como também as vossas autoridades;
18 mas Deus assim cumpriu o que dantes anunciara por boca de todos os profetas que o seu Cristo havia de padecer.
19 Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados,
20 a fim de que da presença do Senhor venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus,
21 ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da ressurreição de todas as cousas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade.
22 Disse, na verdade, Moisés: O Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvires em todo quanto vos disser.
23 Acontecerá que toda alma que não ouvir a esse profeta, será exterminada do meio do povo.
24 E todos os profetas, a começar com Samuel, assim como todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias.
25 Vós sois os filhos dos profetas e da aliança que Deus estabeleceu com vossos pais, dizendo a Abraão: Na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra.
26 Tendo Deus ressuscitado ao seu servo, enviou-o primeiramente a vós outros para vos abençoar, no sentido de cada um se aparte das suas perversidades.

11. Deve ser notado que a cura do homem coxo ocorreu à entrada no templo; a porta Formosa foi o local exato da ocorrência, a esta dava a corte das mulheres. O incidente descrito sob o título acima ocorreu no pórtico de Salomão, localizado do lado de fora da porção judaica do templo.

Devemos concluir, por conseguinte, ao ler o texto, que depois de ser curado, o homem entrou no templo juntamente com Pedro e João (comparar com o versículo 8). Então os apóstolos saíram do recinto sagrado, sem dúvida por causa do tumultuo causado pelo milagre, e enquanto estavam no pórtico de Salomão, o  ex-coxo se abraçou a eles. Talvez o homem tenha chamado a multidão propositalmente, embora isso não seja aqui mencionado.

12-13a. Pedro, observando as circunstâncias, percebeu que o espanto e admiração do povo estavam focalizados nele mesmo e em João, e não em Deus, a quem serviam. A coragem, sabedoria e humildade de Pedro podem ser vistas nos quatro versículos seguintes. Sua coragem é ilustrada no fato que, apesar das circunstâncias um tanto adversas, aproveitou a ocasião para pregar a  Boa-Mensagem. Sua sabedoria pode ser verificada pela maneira com que ele desenvolveu o seu sermão, e a sua humildade é percebida na introdução de sua mensagem. Pedro, na introdução de seu sermão, dá a Deus o crédito pelo milagre:

“... por que fitais os olhos em nós como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar? O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais é Quem operou o que vedes”.

13b-19. Segue-se, então, o corpo da pregação. Por qual motivo foi feito tão tremendo sinal? E eis a resposta: Para glorificar a Seu “Servo Jesus”. Pedro não perdia ocasião para deixar claro a elevadíssima posição do Senhor Jesus.

As palavras de Pedro poderiam ter sido as seguintes: “O Senhor Jeová está glorificando ao Seu Servo Jesus, Aquele a quem vós, judeus, negastes e atraiçoastes. Destes preferência a um homicida. E matastes, assim, o próprio Autor e Príncipe da vida. Deus, entretanto, O ressuscitou dentre os mortos, o que é fato testemunhado por todos os apóstolos”.

A questão de como a cura do coxo reverteu em glória para o Senhor Jesus, só pode ser respondida no versículo 16.

A verdade é que quando o coxo foi curado, toda a glória reverteu a Jesus, pois foi unicamente pela fé em Seu nome que o milagre ocorreu. Naturalmente levante-se a pergunta: “Quem exerceu essa fé?” Um momento de consideração a respeito do caso nos revela que o coxo nada sabia a respeito de Jesus, e, segundo Lucas nos diz, não estava ele interessado em outra coisa que não fosse esmola.

Por conseguinte, a única resposta lógica para aquela pergunta, é: A fé de Pedro e João, em Jesus, foi a causa humana do milagre. Isso está em perfeito acordo com Marcos 16:14-20, onde Jesus repreende os apóstolos por causa de sua falta de fé ao mesmo tempo que lhes promete sinais maravilhosos, caso cressem. O poder de fazer milagres foi dado aos apóstolos por virtude do batismo no Espírito Santo, porém, precisavam exercer fé a fim de que tal poder se manifestasse.

Pedro se refere a outra verdade, em adição ao pensamento anterior – fala, agora, da morte pré-determinada de Jesus. Essa mesma verdade já tinha sido apresentada por ele anteriormente, no dia de Pentecostes. Tinha grande efeito sobre as mentes dos judeus sempre que era apresentada, porque transmitia-lhes profundo sentimento da veracidade do fato. Temperando um pouco a sua mensagem, disse, pois, o apóstolo Pedro: “E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades”. A fim de mostrar no ato de seus ouvintes o cumprimento da profecia, disse que os profetas falaram dos sofrimentos que sobreviriam ao Messias, ficando assim, claro aos ouvintes de Pedro, que tais profecias haviam sido realmente cumpridas, v. 18. Os judeus estavam convencidos de que Jesus era o Ungido de Deus, não somente pelo que foi dito a respeito de Sua ressurreição e de Seu poder de curar. Ficaram, igualmente convencidos de pecado por meio das palavras de Pedro que descreviam a tragédia de haver entregue o Senhor Jesus – o Messias – a um governador estrangeiro, negando assim ao Ungido de Deus, além de terem dado preferência a um assassino. Isso queria dizer, portanto, que eles haviam morto o próprio Autor e Príncipe da vida. Então, sim, Pedro pode exortá-los fortemente ao arrependimento e à obediência. Note-se as palavras do apóstolo: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que da presença do Senhor venham tempos de refrigério”.

Não é necessário interrogarmos a respeito do significado das primeiras palavras dessa exortação de Pedro, pois todos conhecem, em maior ou menor grau, o significado da palavra “arrependimento” (Esse termos quer dizer uma mudança de mente, a qual, por sua vez, provoca uma completa mudança de atitude e de conduta). Mas, para que será que Pedro os exortava a que se “convertessem”? para começar, notemos que, ao se arrependerem e se converterem, aqueles judeus haveriam de receber exatamente o que lhes fora prometido no dia de Pentecostes, quando as condições apresentadas foram “arrependimento e batismo”. Veja-se o paralelo: Em Atos 2:38 foram recomendados e se arrependeram e a batizar-se para que recebessem remissão dos seus pecados e dom de Espírito Santo. Em Atos 3:19 foram exortados a se arrependerem e se converterem para que seus pecados fossem cancelados e para que viessem tempos de refrigério da presença do Senhor. Parecerá lógico que Pedro tenha requerido arrependimento e batismo, no dia de Pentecostes, para que fosse alcançado o perdão dos pecados, e que aqui, no pórtico de Salomão, dirigindo-se ao mesmo povo, apresentasse alguma outra coisa para alcançar o mesmo resultado? Afirmamos, portanto, que o significado real atrás da exortação “e convertei-vos” é, nada mais nada menos que o “batismo”. Os judeus, sem dúvida alguma, vinham presenciando batismos diários de arrependidos (comprar com 2:47); pelo que, quando o apóstolo os exortou a que se arrependessem e se convertessem, sabiam exatamente o que Pedro lhes quisera dizer. Discussão completa do ponto em foco pode ser encontrado em J. W. McGarvey’s New Commentary, às páginas 58-63. (Discutiremos mais completamente o assunto na segunda parte de nossas anotações).

20-21. Pedro fala de outro resultado. Quando se arrependessem e se convertessem, seus pecados seriam cancelados. E então viriam, da presença do Senhor, tempos de refrigério, pelo Espírito de Deus, enviado de Sua presença. Além disso, entretanto, Deus haveria de enviar-lhes o próprio “Cristo”. Qual o significado dessa promessa? Certamente não se referia à primeira vinda do Senhor, pois Ele já tinha vindo e já tinha retornado aos céus; também não se referia à presença de Cristo por intermédio do Espírito Santo, pois já tinha sido feita a promessa de recepção do Espírito. Só poderia referir-se por conseguinte, à segunda vinda do Senhor Jesus Cristo. Todos os judeus aguardavam o Messias como grande Rei dominando o Seu reino. Ele deveria vir a fim de conquistar e subjugar todos os reinos e domínios. E isso, efetivamente o fará, quando vier em Seu segundo advento; pelo que concluímos que as palavras de Pedro aos seus ouvintes hebraicos é que a sua esperança seria materializada na segunda vida do Senhor Jesus Cristo.

Não em um reino temporal, terreno, mas na triunfante glória do rei conquistador e eterno, em Seu Reino. E quando Ele vier não será outro senão o próprio Jesus de Nazaré, a quem haviam crucificado.

Mas, diz Pedro: “... é necessário que o céu receba (a Jesus) até ao tempo da restauração de todas as coisas, de que falou Deus por boca dos seus santos profetas deste a antiguidade”. Sobre este ponto particular, dizemos juntamente com J. W. McGarvey:

“É difícil determinar com exatidão a significação da palavra restauração, aqui usada; é expressão que está limitada, entretanto, por esta outra: “de que Deus falou por boca dos seus santos profetas” o que nos leva a concluir que deve consistir do cumprimento das predições do Antigo Testamento; e que a observação de Pedro deixa claro que o Senhor Jesus não retornará enquanto aquelas predições não forem todas cumpridas” (página 63).

O que sejam essas predições e quais as suas conexões, não é nosso propósito discutir neste volume.

22-26. Pedro termina seu sermão da mesma forma que começou – usando provas, do Antigo Testamento, que esse Jesus de Nazaré é o Messias, ungido de Deus. A predição de Moisés, lida por todos os judeus por centenas de anos, encontrava, agora, o seu cumprimento. Moisés disse:

1. O Senhor Deus haveria de levantar um profeta, o que efetivamente fez na pessoa de Jesus.
2. Esse profeta apareceria e seria enviado aos israelitas, o que também foi cumprido em Jesus.
3. O tal profeta surgiria de entre os seus irmãos, isto é, de entre o povo hebraico; ora, Jesus é de tribo de Judá.
4. Seria, ainda, semelhante a Moisés. As comparações entre Moisés e Jesus não são por demais numerosas para serem enumeradas. Moisés também predisse os terríveis resultados da rejeição daquele profeta.

Pedro chegou ao clímax de seu sermão com a afirmação esclarecedora e definitiva que, todos os profetas, desde o primeiro – Samuel – até o último deles, predisseram os dias do Filho do homem.

Então o apóstolo lança o seu apelo. Paulo atinge o coração mesmo dos judeus ao relembrá-los da entesourada verdade que eles são filhos dos profetas e da aliança que Deus fizera com seus pais, dizendo a Abraão: “Na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra”. A forte inferência é que a promessa de bênção ao mundo, feito por Deus por intermédio dos judeus, era para ser cumprida, nada mais nada menos, na pessoa de Jesus Cristo. Jesus veio à esta terra por meio do povo hebraico, pois era filho de mãe judia e agora, todas as nações da terra são abençoadas por causa de Sua obra de redenção. Eles realmente haviam sido honrados e abençoados, pois o Senhor Deus lhes enviara o Seu Ungido em primeiro lugar, bem como O enviara por seu intermédio, para que desviasse cada um deles de suas iniquidades. Jesus, pois, trouxera o bálsamo pelo qual os seus corações ansiavam, isto é, o cancelamento dos seus pecados.

Observemos, agora, um esboço da pregação de Pedro:

Circunstâncias da pregação, v. 11.

Tema: “Glorificação de Jesus, o Servo de Deus”.

Introdução: A pergunta inicial de Pedro, fazendo a atenção do povo desviar-se de sua pessoa e de João e centralizar-se em Deus, que fora o verdadeiro Autor da cura do coxo, v. 12.

I. Deus, vosso Pai, fez este milagre por intermédio de Jesus, v. 13-16.
1. Mas vós O entregastes e negastes, v. 13.
2. Em Seu lugar pedistes um homicida, v. 14.
3. Matastes o próprio Príncipe da Vida, v. 15a.
4. Mas Deus O ressuscitou dos mortos, e nós somos testemunhas do fato, 15b.
5. Nossa fé em Jesus é que possibilitou este milagre, v. 16.

II. Jesus foi morto por vossa ignorância, mas isto apenas cumpriu as profecias, v. 17,18.

III. Exortação de arrependimento e obediência, para que os seus pecados fossem cancelados e para que recebessem o dom do Espírito Santo, v. 19.

IV. Se houver obediência da vossa parte, as bênçãos da segunda vida do Ungido de Deus vos pertencerão. Este deve permanecer nos céus até que todas as coisas que o Antigo Testamento diz sobre Ele sejam cumpridas, v. 20,21.

V. Mais evidências proféticas de que Jesus é o Messias, v. 22-24.
1. Moisés e o que ele disse a Seu respeito, v. 22,23.
2. Todos os profetas falaram a respeito de Seus dias, v. 24.
VI. Uma exortação aos judeus, relembrando-os que são filhos dos profetas e da aliança, para que aceitem a Cristo Jesus e assim entrem no gozo de todas as promessas dos profetas e da aliança, v. 25,26.

Lucas, naturalmente, nos oferece apenas pequeno resumo das palavras do apóstolo Pedro. Sem dúvida Pedro desenvolveu cada um desses pontos, usando, também de muitas aplicações.

PERGUNTAS
98. Onde é que Pedro pregou seu segundo sermão?
99. Pedro, João e o ex-coxo chegaram a entrar no templo? Por que, então, tornaram a sair?
100. Na tua opinião, qual o motivo que levou o ex-coxo a apegar-se a Pedro e a João?
101. Quais os elementos do caráter de Pedro podem ser vislumbrados no sermão e na maneira de pregá-lo?
102. Qual o propósito do milagre, segundo o apóstolo Pedro?
103. Nomeia três coisas que Pedro disse que os judeus fizeram ao Senhor Jesus.
104. De que modo a cura do homem coxo reverteu em glória ao Senhor Jesus?
105. Explica como esse milagre foi operado por intermédio da fé. De que modo o batismo no Espírito Santo participa desse incidente?
106. Qual a segunda verdade apresentada no sermão de Pedro?
107. Por que foi próprio que Pedro exortasse os judeus ao arrependimento e à obediência na ocasião em que o fez?
108. Qual a significação da palavra “arrependimento”?
109. Qual o significado da expressão “convertei-vos”? prova tua resposta.
110. Qual o apelo do apóstolo Pedro, no fim de sua mensagem?
111. Qual o tema do sermão de Pedro?
112. Escreve, de memória, os pontos principais do esboço do sermão de Pedro.